“Ele pode estar olhando tuas fotos neste exato momento. Por que não? Passou-se muito tempo, detalhes se perderam. E daí? Pode ser que ele faça as mesmas coisas que você faz escondida, sem deixar rastro nem pistas. Talvez, ele passa a mão na barba mal feita e sinta saudade do quanto você gostava disso. Ou percorra trajetos que eram teus, na tentativa de não deixar que você se disperse das lembranças. As boas. Por escolha ou fatalidade, pouco importa, ele pode pensar em você. Todos os dias. E, ainda assim, preferir o silêncio. Ele pode reler teus bilhetes, procurar o teu cheiro em outros cheiros. Ele pode ouvir as tuas músicas, procurar a tua voz em outras vozes. Quem nos faz falta, acerta o coração como um vento súbito que entra pela janela aberta. Não há escape. Talvez, ele perceba que você faz falta e diferença, de alguma forma, numa noite fria. Você não sabe. Ele pode ser o cara com quem passará aquele tão sonhado verão em Paris. Talvez, ele volte. Ou não.”
Caio Fernando Abreu.   



“Contou os anos? Quanto tempo esperei por você? Você crescer, você mudar, você mostrar algum remorso. Você tem de querer. Embora eu queira muito, mesmo eu querendo em dobro, não há como querer por você. Só quem enfrenta longas esperas sabe como é o inferno por dentro. Eu sempre falei, um dia alguém tinha de te dizer não. Eu queria que não fosse eu, porque aí eu poderia ficar numa boa e assistir você sofrer, nem que seja calado num canto, mas sofrendo, mostrando algum arrependimento ou qualquer traço humano. Quem sabe eu até enfiaria os dedos ainda com aneis no meio dos seus cabelos e diria que tudo ficaria bem. Agora é tarde, meu anel já se foi, nem os dedos ficaram.”
Gabito Nunes.

“Não sou grossa. Bom, eu sou. Mas não tanto, me entende? Também sou doce, e carinhosa. Sei que sou chata também, mas também sou legal. Só enxergar. Sou uma pessoa boa, porém mal. Entende? Minha grosseria, minha ignorância, minha chatice, é só uma forma de me proteger. Desculpa, mas cansei de pessoas que marcam e depois vão embora. Por medo de partidas, tem gente que não deixa as pessoas se aproximarem, e eu sou assim. Mas no fundo, eu imploro por pessoas novas, que me amem. Você me entende?”
Camilla Ellen. 

“Vai chegar um dia em que todos vamos estar mortos. Todos nós. Vai chegar um dia em que não vai sobrar nenhum ser humano sequer para lembrar que alguém já existiu ou que nossa espécie fez qualquer coisa nesse mundo. Não vai sobrar ninguém para se lembrar de Aristóteles ou de Cleópatra, quanto mais de você. Tudo o que fizemos, construímos, escrevemos, pensamos e descobrimos vai ser esquecido e tudo isso aqui vai ter sido inútil. Pode ser que esse dia chegue logo e pode ser que demore milhões de anos, mas, mesmo que o mundo sobreviva a uma explosão do Sol, não vamos viver para sempre. Houve um tempo antes do surgimento da consciência nos organismos vivos, e vai haver outro depois. E se a inevitabilidade do esquecimento humano preocupa você, sugiro que deixe esse assunto para lá. Deus sabe que é isso o que todo mundo faz.”
A Culpa é das Estrelas.  


“Ela não sabe mais nada sobre mim. Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos. Ela não sabe quantos livros pude ler em algumas semanas. Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos. Ela não sabe quantos amigos desapareceram desde que me desvencilhei da minha vida social intensa. Ela não sabe que eu nunca mais me atentei pra saudade. Que simplesmente deixei de pensar em tudo que me parecia instável. Que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre. Ela não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinho. Ela não sabe que desde que não compartilhamos mais nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: ela nem imagina que foi ela quem me ensinou esta alegria.”

“Eu só queria que você falasse. Não é pedir demais, é? Falar é tão simples. E acho que de tão simples, você desaprendeu como se faz. Bom, é mais ou menos assim: você vem, inspira muito ar, expira um terço dele, levanta a cabeça, estufa o peito, olha pra mim e fala. Só… fala. Te ver desenhando com os dedos atrás da minha nuca é gostoso, mas não facilita as coisas. Do que adianta você me encher de beijos e depois sair pela porta em silêncio? Eu preciso ouvir a sua voz. Falando, gritando, rasgando os ventos contrários, tanto faz. Eu só preciso ouvir, mesmo que não mude nada. Fala alguma coisa que quebre essa Era Glacial entre nós dois, por favor. Você apenas sorri enquanto eu tagarelo silábas intermináveis sobre toda a minha vida, mesmo ela não sendo tão interessante assim. O problema é que eu não me contento em saber apenas como foi o seu dia ou o seu fim de semana na casa dos seus amigos. Eu quero saber também como foi o seu verão passado, o ultimo natal na casa dos seus pais, quando você ganhou o primeiro bichinho de estimação, onde aprendeu a tocar guitarra e todas essas coisas memoráveis guardadas aí dentro. Isso tudo sem parecer uma policial investigativa louca, é claro. Eu só queria, na verdade, conhecer um pouco mais o teu passado pra me estabilizar no teu presente. Mas você não fala. Nada. Nem uma palavrinha. E eu sou obrigada a tentar decifrar os mil códigos que se escondem por detrás do seu “bem que a gente poderia se ver de novo, ein?”. O meu medo é não saber o que vem depois da interrogação. E você é o meu maior questionamento sem resposta alguma. Acho que, exatamente por isso, eu sempre acabo aceitando as suas suposições e silêncios. Eu volto, mesmo que você não fale. E eu sempre volto justamente pra te ouvir falar.”
Capitule